Uma análise descritiva da hipótese do gasto público pré-eleitoral (2002-2022)


A relação entre política e economia é um campo fértil de estudo, especialmente em mercados emergentes como o Brasil, onde a instabilidade política frequentemente se traduz em volatilidade econômica. O mercado de ações, representado pelo , é uma concentração sensível às expectativas e incertezas geradas pelo calendário político. A hipótese central a ser testada neste trabalho baseia-se na premissa do Ciclo Político-Econômico (CPE), que sugere uma manipulação oportunista da política fiscal no período que antecede as eleições. Segundo essa visão, o aumento dos gastos públicos no ano anterior ao pleito iria para a atividade econômica e, consequentemente, os retornos do mercado acionário, sendo seguido por uma correção fiscal e de mercado nos anos seguintes. O objetivo deste artigo é, portanto, analisar os retornos do Ibovespa nos anos anteriores à eleição, da eleição e no primeiro ano de mandato, para os ciclos de 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, e 2022 a fim de verificar a validade empírica dessa hipótese no contexto brasileiro recente.

TEÓRICO REFERENCIAL

A Teoria do Ciclo Político-Econômico (CPE)

A teoria do CPE, popularizada por Nordhaus (1975), postula que os governantes, motivados pela reeleição, utilizam instrumentos de política econômica, como o aumento do gasto público, para gerar um boom artificial na economia no período pré eleitoral. Essa manipulação visa maximizar a popularidade e as chances de vitória, mesmo que resulte em custos inflacionários ou fiscais no futuro (GOBBI, 2011).

No contexto do mercado de ações, espera-se que esse estímulo fiscal pré-eleitoral se reflita em um desempenho superior do índice acionário, seguido por uma desaceleração ou correção à medida que o novo governo (ou o reeleito) implementa políticas de austeridade ou consequências as consequências fiscais da gestão anterior.

Ciclos Políticos e o Mercado de Ações Brasileiro

Uma literatura sobre o impacto dos ciclos políticos no mercado de ações brasileiro apresenta resultados mistos. Estudos empíricos, como os de Locatelli (2017), que analisaram os retornos e a volatilidade do Ibovespa, não encontraram evidências estatisticamente significativas de retornos anormais no período pré-eleitoral a um nível de 5% de significância.

Contudo, o autor relatou que a volatilidade do Ibovespa tende a ser influenciada no período de 12 a 6 meses antes das eleições,
Observar que a incerteza é um fator mais óbvio do que o retorno médio (LOCATELLI, 2017).

A política de incerteza, em particular, tem sido identificada como um fator crucial. Bitencourt e Iquiapaza (2024) destacam que a incerteza da política econômica impacta o sentimento do investidor e o desempenho do mercado. O ano eleitoral é, por natureza, um período de alta incerteza, pois o mercado precisa precificar os riscos associados às diferentes plataformas políticas e à potencial mudança de regime econômico. A resolução dessa incerteza, após a eleição, pode desencadear um rali de colapso (ou comício pós-eleitoral), independentemente do resultado.

ANÁLISE DE RESULTADOS


representando os períodos de cada eleição com o ano anterior, ano a eleição e 1º ano de mandato

Uma análise descritiva dos dados revela um padrão que não corrobora a hipótese de que o ano pré-eleitoral seja de maior rentabilidade. Conforme a imagem imagem 1, o primeiro ano de mandato apresentou o maior retorno médio, com 26,00%, seguido pelo ano anterior à eleição (14,17%) e pelo ano da eleição (5,00%). O retorno do Ano Anterior foi maior que o do Ano da Eleição em apenas 3 de 6 ciclos (50%). O retorno do Ano Anterior foi maior que o do 1º Ano de Mandato em apenas 1 de 6 ciclos (16,7%).

O resultado mais notável é o desempenho superior do primeiro ano de mandato, que superou o ano anterior em 5 dos 6 ciclos analisados. Esse achado sugere que o mercado acionário brasileiro tende a reagir mais positivamente à resolução da incerteza e ao início de uma nova gestão do que ao suposto estímulo fiscal pré eleitoral. O alto retorno no primeiro ano pode ser explicado pelo efeito-base (em 3 dos 6 ciclos, o ano da eleição ou o anterior tiveram retornos negativos, como em 2002, 2010 e 2014) e pelo rali de rompimento que se segue à definição do cenário político.

CONCLUSÃO

Uma análise descritiva dos retornos do Ibovespa nos ciclos eleitorais de 2002 a 2022 refuta a possibilidade de que o ano anterior à eleição seja consistentemente o período de maior rentabilidade, impulsionado por gastos públicos, seguido por uma correção. Os dados demonstram que o primeiro ano de mandato é, em média, o período de melhor desempenho para o Ibovespa, com um retorno médio de 26,00%. Este resultado sugere que, no Brasil, o fator de incerteza política e sua subsequente resolução podem ter um peso maior no mercado acionário do que a manipulação fiscal oportunista prevista pela teoria do CPE.

O mercado parece precificar o risco eleitoral durante o ano da eleição e reagir com otimismo (ou colapso) à definição do novo cenário político e econômico.
Trabalhos futuros puderam aprofundar esta análise utilizando modelos econométricos, como o GARCH, para testar a significância estatística dos retornos e da volatilidade em cada período, conforme sugerido por Locatelli (2017), e incorporar variações macroeconômicas como a taxa Selic e o risco-país.

REFERÊNCIAS

BITENCOURT, WA; IQUIAPAZA, RA A incerteza da política econômica, sentimento e desempenho do mercado de ações brasileiro. Revista Contabilidade & Finanças, São Paulo, v. 94, pág. 1-18, 2024.
GOBBI, SG Teoria dos Ciclos Político-Econômicos: Um Estudo de São Paulo. 2011. Dissertação (Mestrado em Economia) – Universidade Estadual Paulista, Araraquara, 2011.
LOCATELLI, A. O impacto dos ciclos políticos econômicos nos retornos e na volatilidade do Ibovespa. 2017. Dissertação (Mestrado em Economia) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2017.
LOCATELLI, A.; LOBO E SILVA, CE; ALVIM, AM O impacto dos ciclos políticos nos retornos e na volatilidade do Ibovespa. Revista Estudo & Debate, Lajeado, v. 1, pág. 115-132, 2019.
NORDHAUS, WD O ciclo político de negócios. A Revista de Estudos Econômicos, v. 42, n. 2, pág. 169-190, 1975. QUEIROZ, DB Influência do ano eleitoral, da mudança de gestor público e do mandato eleitoral sobre mudanças na composição dos gastos públicos nos estados brasileiros. REUNIR Revista de Administração, Contabilidade e Sustentabilidade, v. 1, pág. 1-18, 2018.





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