Antes da independência do Banco Central brasileiro, a ingerência político-ideológica sobre a se limitava ao viés dovishde afrouxo metálico.
Por conta disso, Alexandre Tombini foi carinhosamente apelidado de “Pombini” pelo mercado, ao praticar o menor esforço possível para aproximar a preservação efetiva do sótão da meta.
Agora, porém, temos um novo contexto, no qual as emoções idiossincráticas de um presidente do Bacen – e de sua diretoria – podem se manifestar também por meio do viés falcãode aperto.
Nessa interpretação inédita, um Bacen oposicionista teria ao menos dois anos de autonomia para manifestar seu descontentamento com o status quo, compensando manobras fiscais que julgavam excessivamente ou simplesmente agiam por vingança.
Embora esteja tácito no debate atual, não estou dizendo aqui que RCN se comporta dessa maneira, até porque possui a seu favor uma convergência sistemática da herança futura para embasar tecnicamente o tom falcão.
Mas devemos considerar que aquilo que, pré-independência, não era sequer uma possibilidade hoje passa a ser: o uso não técnico do falcão.
Não acho que isso seja necessariamente ruim, já que permite que pombos e falcões disputem altitude sob as mesmas condições de paridade, construindo um equilíbrio pendular dialético.
E com certeza não é motivo para colocarmos em xeque a independência do Banco Central.
Um dos grandes debates da Filosofia da Ciência – talvez o maior deles – é o de como procuramos a empregar ferramentas técnicas para promover, de forma mascarada, os nossos anseios mais primitivos.
O dionisíaco que se manifesta, à luz do dia, através de Apolo.
Se o presidente do Bacen bebe seu vinho disfarçado de Apolo, o presidente da República não faz questão nenhuma de disfarçar.
Contra a responsabilidade fiscal, contra o Banco Central, contra a Eletrobras (BVMF:) privatizada, contra tudo e contra todos, Lula não tem conseguido ficar a favor de si mesmo neste início de mandato.


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