Quando a IA faz o trabalho de consultoria


Com Júlia Campos* e André Fonseca**

Recentemente conduzimos um exercício curioso para uma dissertação de mestrado. Queríamos discutir o futuro da consultoria em um mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial. Para isso, seguiremos parte do processo de planejamento estratégico: mapear o ecossistema da indústria e construir planos sobre seus possíveis futuros.

Esse tipo de exercício é relativamente comum em planejamento estratégico. Algumas consultorias fazem isso há décadas. Reunimos especialistas de diferentes áreas, discutimos tendências e incertezas e, a partir dessas conversas, estruturamos cenários plausíveis sobre o que pode acontecer nos próximos anos.

Mas desta vez resolvemos fazer o exercício de duas formas.

Primeiro, da maneira clássica, reunindo pessoas reais. Convidamos diferentes atores do ecossistema da consultoria para discutir tendências, tecnologias emergentes e mudanças no mercado. A partir dessas conversas, construímos cenários para os próximos cinco anos da indústria.

Depois, fizemos algo diferente. Utilizando modelos de linguagem baseada em inteligência artificial, pedimos que o sistema analisasse textos sobre o setor de consultoria e identificasse os principais atores desse ecossistema. Em seguida, solicitamos que a própria IA criasse perfis de especialistas fictícios que representassem esses diferentes pontos de vista: executivos, consultores, clientes, especialistas. Por fim, simulamos dentro do ambiente da IA ​​uma oficina de construção de cenários, semelhante ao que fomos feitos com pessoas.

O resultado foi surpreendente.

Os projetos gerados pela inteligência artificial foram, em grande medida, muito próximos daqueles que surgiram no exercício limitado com especialistas humanos. Em ambos os casos surgiram algumas opções possíveis para o futuro da consultoria.

Em alguns cenários, a indústria continua altamente relevante. A inteligência artificial passa a ser incorporada ao trabalho de consultoria, aumentando produtividade e capacidade analítica. Nesse futuro, consultorias ajudam organizações a implementar e capturar valor a partir de tecnologias de IA, de forma semelhante ao que ocorreu no passado com grandes sistemas corporativos como os ERPs.

Em outros, surge um modelo híbrido. Consultorias continuam existindo, mas com equipes menores e fortemente reforçadas por agentes de inteligência artificial. O trabalho analítico se torna mais automatizado, enquanto os consultores humanos se concentram em interpretação, relacionamento com clientes e tomada de decisão estratégica.

Já nos cenários mais disruptivos, parte significativa do trabalho tradicional de consultoria passa a ser internalizado pelas próprias organizações. Com ferramentas de inteligência artificial cada vez mais acessíveis, as empresas desenvolvem internamente capacidades analíticas que antes dependem de consultores externos. Nesses contextos, o modelo tradicional de cobrança por “homem-hora” perde sentido.

Esses futuros são plausíveis. E provavelmente veremos elementos de todos eles coexistindo nos próximos anos.

Mas, o aspecto mais provocativo do experimento talvez não fique apenas nos cenários gerados. Ao mapear o ecossistema da consultoria, um elemento ficou claro: o valor das consultorias não é apenas na expertise técnica. Ele também está em sua posição estrutural como as informações de conhecimento. Organizações que conectam diferentes setores, transferem práticas entre setores e ajudam empresas a interpretar mudanças complexas.

É exatamente esse papel de “corretor” que agora começa a ser focado pela inteligência artificial. Ferramentas baseadas em IA conseguem analisar grandes volumes de informação, identificar padrões e até debates estratégicos simulados entre especialistas. Em nosso experimento, a IA foi capaz de reproduzir grande parte do raciocínio que surgiu em um workshop conduzido com pessoas, mas em uma fração do tempo.

Isso abre uma possibilidade interessante: os exercícios de planejamento estratégico podem se tornar mais rápidos, mais escaláveis ​​e ambientalmente mais sofisticados. Mas também levanta uma questão importante. O valor do planejamento por planos nunca esteve apenas no documento final. Ele está, principalmente, nas conversas difíceis, nas discordâncias e nas mudanças de perspectiva que acontecem durante o processo. Ou seja, quando os líderes participam da construção dos cenários, eles internalizam o julgamento por trás deles.

Se delegarmos o processo de planejamento à inteligência artificial, é provável que obtenhamos planos até os melhores. No entanto, talvez percamos algo fundamental: o aprendizado estratégico orgânico que acontece dentro das organizações. Por outro lado, a premissa de que precisamos aprender algo com esse processo é, em si, uma escolha, e não uma imposição da tecnologia. É possível que a internalização do raciocínio gerado pela discussão de cenários traga mais valor à organização se for incorporada exclusivamente à base de conhecimento de espectadores não humanos.

É difícil prever as escolhas que faremos, mas a direção da adoção da IA ​​já está traçada. Dito isso, ficaram claras neste processo as incertezas sobre o futuro da consultoria. É natural que seja assim: somos todas as partes interessadas e, ainda que não fôssemos, o problema é altamente complexo. É possível afirmar com confiança, entretanto, que o futuro está em algum ponto de um espectro contínuo que vai dos humanos fazendo tudo para os humanos não fazendo nada. Onde nos posicionaremos nesse espectro será uma escolha da sociedade. O fato é que nossa pesquisa mostra que as IAs já conseguem elucubrar sobre cenários futuros tão bem quanto nós.

O humano prudente precisa de consideração a hibridização que todos já vivenciamos. Por enquanto, o desempenho de um modelo híbrido ainda depende intimamente do desempenho do humano que atua dentro dele. Talvez, o futuro da consultoria seja exatamente este: uma habilidade de extrair as IAs muito mais valiosa do que o próprio cliente seria capaz de extrair sozinho.

*Consultora de estratégia e gestão e é mestranda pelo COPPEAD

**Professor e coordenador do Centro de Estudos em Estratégia e Inovação do COPPEAD/UFRJ





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