No primeiro mês de 2026, o varejo voltou a apresentar perda de fôlego e reforçou o viés mais fraco observado no segundo semestre de 2025. O índice ampliado recuou 1,3% na comparação mensal com ajuste sazonal, após também ter registrado queda em dezembro. No recorte restrito, a retração foi de 0,9%, em intensidade um pouco menor. Na comparação com janeiro de 2025, ambos tiveram quedas relevantes, de 5,9% no ampliado e 5,6% no restrito, restrito que o setor iniciado 2026 no patamar inferior ao do ano anterior, que já havia sido desafiador.
A leitura regional do Índice de Varejo Stone (IVS) corrobora esse diagnóstico, ao sugerir que o enfraquecimento não ficou concentrado em poucos mercados. Em janeiro, a piora foi relativamente divulgada entre as unidades da federação, com algumas abordagens, o que reforça a interpretação de que o desempenho do mês está mais associado a fatores macroeconômicos e financeiros que a choques localizados.
No cenário macro, o quadro geral mudou um pouco, mas alguns vetores ganharam peso. Pelo lado positivo, o mercado de trabalho segue sustentando a renda, ainda que com sinais de moderação. Em 2025, o saldo de criação de vagas formais foi o menor desde 2020, mas a taxa de desemprego medida pelo IBGE apresentou em mínimo histórico, com o menor patamar médio anual da série. Entre o 4º trimestre de 2024 e o 4º trimestre de 2025, a evolução real avançou 5% e a massa salarial real cresceu 6,4%, ajudando a amortecer uma desaceleração mais abrupta do consumo.
Pelo lado restritivo, o crédito segue como o freio principal. Com juros reais superiores, o endividamento das famílias e o comprometimento de renda com o serviço da dívida continuam instruções nas decisões de compra, especialmente em bens de maior valor. Em novembro de 2025, esse comprometimento alcançou 29,3%, o maior nível da série histórica. Em linha com esse ambiente, ao descontar as concessões de cartão de crédito à vista e o parcelado sem juros, o crescimento do crédito às pessoas físicas em 2025 ficou cerca de 9,7 pp abaixo da contribuição em 2024, reforçando a leitura de aperto nas condições financeiras.
A inflação, apesar do resfriamento ao longo dos últimos meses de 2025, ainda impõe desafios. No acumulado de 2025 foi de 4,3%, abaixo de 2024, mas componentes mais sensíveis à demanda, como serviços, comentários apertados (6% em 2025), e a medida de núcleo acompanhado pelo Banco Central cerrou o ano em 4,6%. Esse quadro, combinado com a perda de dinamismo da atividade sinalizada pelo IVS, ajuda a explicar por que a melhora recente da inflação ainda não se traduziu, até aqui, em alívio suficiente para a contribuição o consumo no início de 2026.
Em resumo, janeiro reforça que o varejo começou o ano sob uma viés mais fraca. O mercado de trabalho ainda sustenta a renda, mas o custo do crédito e o alto comprometimento das famílias seguem como vetores centrais de restrição, direcionam o consumo e contribuem para uma retração anual mesmo diante de uma base já enfraquecida em 2025.
À frente, as próximas leituras serão importantes para avaliar se a desaceleração de janeiro se mantém ou perde intensidade. Em particular, este ano pode abrir espaço para uma melhoria gradual ao longo do período, caso se confirme o início do ciclo de redução da taxa básica a partir de março, o que tende a aliviar as condições financeiras e favorecer o crédito e a demanda.


0 responses on "Pressionado pela condição financeira dos brasileiros, varejo recua em 2026"