*Com Eduardo Muniz
Nas últimas semanas, o mercado financeiro voltou a assistir a episódios que expõem graves falhas de gestão e controle em empresas e instituições financeiras. Em geral, esses casos resultarão em perdas relevantes, ações de reguladores e impactos diretos sobre clientes, investidores e equipes internacionais. Mais do que eventos isolados, eles reforçam um ponto central para quem analisa risco: governança não é um custo operacional, mas sim um mecanismo de proteção.
Governança forte é que sustenta a confiança do mercado, reduz assimetrias de informação e protege o cliente em cenários adversos. Não se trata apenas de políticas formais ou estruturas bem projetadas no papel. Na prática, a governança revela a qualidade das decisões, a transparência dos processos e, principalmente, a capacidade de identificar riscos antes que eles se transformem em perdas.
Quando uma falha de governança, o impacto relatado fica restrito à empresa. O cliente tende a ser o mais exposto, seja por meio de prejuízos financeiros, indiretos de serviços ou quebra de confiança. Em muitos casos, as fragilidades internacionais são justificadas como inovação, eficiência ou estruturas financeiras sofisticadas. O problema é que, quando essas apostas dão errado, o costume costuma ser elevado e compartilhado com quem não participou da decisão.
Uma governança sólida cria filtros claros para decisões relevantes, estabelece limites de objetivos de risco, reduz conflitos de interesse e garante que controles não apenas existam, mas funcionem e sejam testados de forma recorrente. Para o investidor, isso significa maior previsibilidade. Para o cliente, mais segurança. Para a instituição, sustentabilidade no longo prazo.
Esse modelo se apoia em um desenho bem definido de responsabilidades, tradicionalmente estruturado nas Três Linhas de Defesa. A primeira linha — negócios e operações — é onde o risco nasce e deve ser gerido diariamente, com disciplina na execução e respeito a políticas e limites. A segunda linha — risco, compliance e controles internos — atua de forma independente, definindo diretrizes, monitorando e questionando decisões, com foco em riscos regulatórios, operacionais, financeiros e reputacionais. A terceira linha — auditoria interna — avalia se todo esse sistema funciona de fato, apontando falhas estruturais e recomendando ajustes.
Esse conjunto é composto por auditores externos e reguladores, cuja atuação traz visões independentes e pressão constante para garantir o cumprimento das melhores práticas. Para o mercado, esse ecossistema é um sinal claro de maturidade institucional.
Ainda assim, nenhuma estrutura é eficaz sem pessoas. Muitas crises corporativas não começam com grandes decisões erradas, mas com pequenos desvios, abordagens pontuais ou “soluções criativas” que parecem inofensivas no início. É nesse estágio que surge um alerta importante: a percepção de que algo não está certo.
Esse sinal não deve ser ignorado. O colaborador não tem o papel de investigar ou comprovar irregularidades, pois essa é a função das áreas especializadas. Seu papel é repórter. Os canais de denúncia existem justamente para transformar sinais em análises estruturadas, antes que o problema aumente.
Na prática, o mercado mostra que o silêncio costuma ser mais arriscado do que a exposição responsável. Profissionais que passaram por instituições envolvidas em eventos graves enfrentam frequentemente dificuldades de recolocação, mesmo sem qualquer participação direta nas falhas. A associação entre pessoas e crises, ainda que injusta, é comum. Em muitos desses casos, havia desconforto interno antes, mas o medo de retaliação ou a crença de que “nada vai acontecer” acabou prevalecendo.
Denunciar de boa-fé é uma forma de proteção, pessoal e institucional. Demonstrar integridade, alinhamento com os princípios de mercado e compromisso com o cliente. Esperar por provas definitivas para agir costuma significar agir tarde demais.
Em um ambiente marcado por volatilidade, mudanças regulatórias e surpresas recorrentes, a governança forte deixou de ser apenas um diferencial competitivo. Ela é um pré-requisito para a perenidade dos negócios. Para investidores, clientes e profissionais do mercado, a mensagem é clara: estruturas importantes, controles importantes, mas pessoas dispostas a fazer o certo importa ainda mais. Governança, no fim das contas, é responsabilidade de todos.
*CRCO do banco Moneycorp


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