Na coluna deste mês, abordei as mudanças recentes nas expectativas do mercado em relação à inflação brasileira e os impactos desse movimento sobre a economia, tanto no cenário atual quanto nas perspectivas para os próximos anos. A divulgação de um de fevereiro mais persistente, combinada com a recente disparada do preço do petróleo em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio, levou o mercado a reverter parcialmente a precificação do risco inflacionário.
Esse movimento foi percebido rapidamente na curva de juros brasileira. Nas últimas semanas, relatou-se uma abertura relevante nas taxas dos contratos futuros de DI, refletindo um aumento do prêmio exigido pelos investidores para carregamento de títulos de renda fixa. Ao mesmo tempo, os indicadores de previsões do mercado de títulos públicos mostram que a chamada de inflação implícita também foi levantada.
A inflação implícita é um indicador bastante aplicado no mercado financeiro. Ela reflete, de forma aproximada, a diferença entre os impostos de juros nominais de títulos prefixados (como LTN e NTN-F) ou a curva de DI futuro, e os impostos reais dos títulos indexados à inflação (NTN-B e NTN-B Principal) de vencimentos semelhantes. Em termos simplificados, podemos pensar na seguinte relação:
Inflação implícita ≈ taxa nominal – taxa real
É importante destacar, entretanto, que essa diferença não representa uma previsão direta de inflação. Na prática, ela carrega também um prêmio exigido dos investidores para compensar riscos inflacionários, além de fatores como liquidez e posicionamento de mercado. Uma maneira simples de visualizar esse movimento é observar o comportamento recente dos títulos públicos. Como exemplo, podemos considerar dois papéis com vencimentos bastante próximos: a LTN 2032 (vencimento em 01/01/2032) e a NTN-B 2032 (vencimento em agosto do mesmo ano). Convido o leitor a acompanhar a evolução recente dessas taxas no próprio site do Tesouro Direto.
Entre os dias 10 e 12 de março, observou-se o seguinte movimento:
i) a taxa do Tesouro Prefixado 2032 subiu de aproximadamente 13,62% para 13,87% ao ano;
ii) a taxa do Tesouro IPCA+ 2032 passou de cerca de 7,62% para 7,79% ao ano.
Em ambos os casos houve abertura de juros, ou seja, queda no preço dos títulos. Porém, o movimento foi mais intenso na taxa nominal do que na taxa real. Em outras palavras, em apenas dois dias a inflação implícita aumentou cerca de 8 pontos base (0,08%). Esse tipo de movimento costuma ocorrer em períodos nos quais o mercado passa a exigir maior prêmio para carregar risco inflacionário. Em momentos de aumento da incerteza inflacionária, é comum que os investidores reduzam a exposição a títulos prefixados, que são mais sensíveis a surpresas de inflação, e busquem proteção em ativos indexados ao IPCA. Esse reposicionamento tende a provocar exatamente o que observamos: uma abertura mais rápida da curva nominal em relação à curva real.
O contexto internacional ajuda a explicar parte desse movimento. A escalada das geopolíticas no Oriente Médio elevou o preço do petróleo e reacendeu preocupações sobre os custos de energia ao redor do mundo. O petróleo exerce um papel particularmente importante na dinâmica inflacionária. Seu impacto não se limita aos combustíveis. Ele afeta transporte, logística, custos industriais e diversos preços ao consumidor final. No Brasil, o componente energia possui peso relevante na estrutura do IPCA.
Vale lembrar ainda que as economias emergentes, como a brasileira, tendem a ser mais sensíveis a choques inflacionários vindos do exterior. Movimentos bruscos em commodities ou no câmbio costumam transmitir com relativa rapidez para a inflação doméstica. Dito isso, é importante evitar instruções precipitadas. Os movimentos de curto prazo na inflação implícita nem sempre representam uma mudança estrutural nas expectativas de inflação. Em muitos casos, refletem apenas ajustes de prêmio ou reposicionamento de investidores diante de um cenário global mais incerto.
Ainda assim, esses sinais não devem ser ignorados. O mercado financeiro frequentemente antecipa mudanças de percepção antes que elas apliquem de forma clara nos indicadores tradicionais de expectativa de inflação. Caro leitor, espero ter ajudado. Qualquer dúvida, permaneça à disposição. Forte abraço e até a próxima!
* Raphael Moses Roquete é Doutor e Mestre em Administração (ênfase em Finanças) pelo Instituto COPPEAD de Administração – UFRJ. Professor do Instituto COPPEAD de Administração da UFRJ. Raphael pode ser encontrado em raphael.moses@coppead.ufrj.br


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