O Drama da Venezuela | Investindo.com


Os EUA invadiram o “narcoestado” da Venezuela, assim como fizeram com o Panamá de Noriega, há algumas décadas. Quando necessário, ditaduras populistas podem sofrer intervenção externa, sim. Aposto que o bom povo da Venezuela — não uma massa de manobra do ditador — deve estar festejando pelas capitais do mundo.

O problema é que, estranhamente, não podemos afirmar que essa “intervenção” foi positiva para a estabilidade da região. Isso porque houve uma captura de Nicolás Maduro, em Caracas, pelo Comando Delta, mas não se mexeu na estrutura de poder, corrupta, clientelista e oportunista. Se nada muda no país — com as mesmas políticas econômicas equivocadas, o uso da PDVSA para ganhos políticos, corrupção generalizada, além de generais, juízes e ministros do STF cooptados pelo bolivarianismo —, como imaginar que algo pode de fato mudar?

É importante considerar, no entanto, que o ambiente institucional do país colapsou muito antes de uma crise explodir. O que aconteceu na Venezuela foi a “crônica de uma morte anunciada”, parafraseando Gabriel García Márquez. Tratou-se de um processo clássico de amplitude institucional. Na sequência, veio a fuga de empresas, a escassez e a migração em massa. O país vive mergulhado no caos, com o tecido social irremediavelmente esgarçado. O estágio político é apenas o último capítulo. E, se não fosse uma intervenção de Trump, sequer saberíamos qual seria esse desfecho.

É importante salientar, ainda, que o chamado “risco-país” não deriva apenas de números fiscais ou de inflação. Ele decorre também da percepção institucional. Os investidores observam estabilidade, previsibilidade, respeito a contratos e alternância de poder. Quando essas variáveis ​​se tornam nebulosas, o capital não espera discurso: vai embora.

Como disse um amigo da rede, “a Venezuela é o exemplo extremo do que acontece quando as instituições são corroídas por dentro. Mas o alerta não é exclusivo. Toda democracia que flerta com a relativização de regras, ataca freios e contrapesos ou trata a oposição como inimiga entra numa zona perigosa — inclusive do ponto de vista econômico. Os empresários sabem disso melhor do que ninguém. Não existe crescimento sustentável sem confiança institucional. Não existe crescimento de longo prazo sem regras claras. Não existe ambiente de negócios saudável onde o poder se torna absoluto.”

Por outro lado, é insuportável ver um bando de militantes “vomitando” teses completamente sem sentido — “soberania”, “autodeterminação dos povos”, “imperialismo”, entre outras. Eles se esqueceram de que os americanos já intervieram em países nesse mesmo contexto, como no Panamá de Noriega, e, à época, todos se calaram. A acusação era a mesma: envolvimento com redes de tráfico internacional. Agora, soma-se o petróleo para embaralhar ainda mais o debate.

Trata-se de uma discussão ampla, complexa e até filosófica. A democracia precisa ser fortalecida sempre, sem populistas tolerantes — sejam eles Lula, Maduro ou Bolsonaro. Hugo Chávez se consolidou no poder corrompendo estruturas, promovendo militares de forma relâmpago, muitas vezes pulando posições. No Judiciário, ocorreu o mesmo. Ele “dourou” uma elite do setor público para garantir apoio permanente. A democracia pode ser perturbada, sim. Foi no Brasil, na Venezuela, e segue sendo. As evidências são escandalosas, os fatos são postos, não há manipulação. A esquerda, no entanto, só enxerga o que quer enxergar.

Não dá para condenar o ato do governo Trump. Houve eleição recente na Venezuela. Observadores da OEA e de diversos governos — inclusive do PT — estiveram em Caracas e atestaram que houve, sim, muita fraude. O assunto acabou abafado pela fábrica de propaganda petista-bolivariana. Maduro assumiu o poder, enquanto Maria Corina e outros opositores foram covardemente perseguidos. A ONU, à época, ensaiou um muxoxo e nada fez. Enquanto isso, as crises migratórias explodiram nas fronteiras e as críticas ao regime se acumularam.

Talvez o mais importante agora seja conduzir uma transição com cuidado, dado o estrago deixado pelo bolivarianismo. O que se comenta é que Maria Corina, por enquanto, estaria fora dos planos. Com base em quê? O mesmo se diz sobre Edmundo González Urrutia. Colocar um vice de Maduro no comando é trocar seis por meia dúzia.

A história mostra que nem sempre disciplinas dos EUA são bem conduzidas no “day after”. Basta lembrar Bagdá após a queda de Saddam Hussein, o Afeganistão após a retirada do Talibã, ou a Líbia depois de Kadafi. Os exemplos se acumularam. O desafio na Venezuela é ainda maior: uma sociedade destruída, corroída pela corrupção e pelo populismo. Essa é uma grande incógnita. Não será fácil reconstruir um país em terra arrasada. Uma transição mal feita apenas agravaria o problema. Será necessária uma costura extremamente cuidadosa. As Forças Armadas seguem homologadas a Maduro, o Judiciário está integralmente cooptado, e o Congresso, em grande parte, também. Não será simples. Por isso, é precipitado a exigência de legitimidade imediata para a oposição.

Ainda assim, não gosto do formato dessa transição. O regime boliviano, com toda a sua corrupção, continua de pé. Parece mais um tiro n’água de Trump. A transição tende a ficar incompleta. Por que não aceitaram Maria Corina ou Edmundo González Urrutia? Simples: porque pessoas honestas e íntegras não aceitariam a ingerência que Trump pretende exercer sobre a Venezuela. Apenas os corruptos aceitaram.

Sobre a invasão da Venezuela, o que se diz é que a motivação não teria sido o petróleo, mas o “ouro azul”. Ao sul do rio Orinoco está o chamado Arco Mineiro. Durante uma década, essa região trabalhou como um buraco negro, onde o Cartel dos Sóis e entidades chinesas extraíram ilegalmente coltan (nióbio-tântalo) e tório — minerais essenciais para a eletrônica moderna. A ofensiva dos EUA teve de cortar a linha de fornecimento ilícita mais crítica de Pequim no Ocidente.

Há ainda uma parceria pesada da Venezuela com China, Irã, Rússia e outros países do chamado “eixo do mal”. O movimento de Trump buscou, essencialmente, romper essa conexão.

No mercado de petróleo, a Venezuela detém a segunda maior reserva do mundo, mas responde por apenas 0,1% da produção global. Por quê? Simplesmente porque não houve investimentos na ampliação da capacidade produtiva. A PDVSA sempre foi instrumentalizada politicamente, com recursos desviados para plutocratas do regime. Agora, a empresa precisa voltar a ser eficiente e investir em produção.





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