Mercado financeiro: Os “tios e tias do Zap” ainda respiram


Telefone é pra falar

Eu me lembro nitidamente do quanto, lá na época da minha adolescência, minha mãe era avessa a tecnologia.

O negócio dela era ler livro. Físico mesmo, de papel, aqueles que vendiam na Saraiva (BVMF:), na Siciliano, na Cultura (e pensar que, em poucos anos, citar esses nomes será tão estranho quanto lembrar quando PanVel era Panitz e Velgos).

Olhava para computadores, celulares, tablets… e não se conformava. Jamais se imaginaria usuária daquilo.

Como raios alguém vivia com o celular no silêncio? Telefone é pra falar, oras!

O general me mandou uma mensagem garantindo

Corta para o final de 2022.

Lá estava ela, dia e noite, vidrada no celular. Grupos e mais grupos de WhatsApp. Comunidades e mais comunidades de Facebook (NASDAQ:) – o Zuckerberg deve estar até agora sem entender que raios fazem tantos septuagenários brazucas na rede defunta.

E ela jurava de pé junto que fazia parte de um grande exército virtual que salvaria o país. A cada áudio, um novo sopro de esperança. “É hora de ir pra frente dos quartéis!”

Muita gente foi. Ela, eu consegui impedir. O resultado, já sabemos.

Seduzido pela própria narrativa

Mas o fato concreto é que existe algo nas redes sociais que alimenta no ser humano um lado muito nefasto, que é o da controlado da mentira. O que leva alguém a se passar por geral e disseminar que o Alexandre está preso e o Villas Boas está no comando?

Eu sinceramente não consigo entender. Talvez o tesão seja sentir-se ouvido, notado… e, para pessoas suficientemente perturbadas, isso vale absolutamente qualquer coisa.

Os bancos brazucas e os tios do zap

Hoje a babá do Otto veio me perguntar se era verdade que o Nubank (BVMF:) ia quebrar. Lembrei-me da anedota do engraxate que fez o banqueiro vender tudo às vésperas da crise de 29, mas ao contrário.

Na esteira das intervenções em bancos regionais nos EUA – das quais a mais ruidosa é a do SVB -, há quem esteja se divertindo disseminando, sem qualquer base factual razoável, que certos seguros brasileiros estão indo para o vinagre.

Sirvo-me desse espaço – do qual muito ansiosamente tenho me servido… – para afirmar que não há nada que suporte essa narrativa. É coisa de “tio do zap”. Quando a boataria fura a bolha e alcança o mainstream das pessoas comuns, sabemos que a coisa foi longe demais.

Vim, vi, venci

O noticiário do final de semana foi pesado e a sessão de segunda-feira foi bicuda.

Sendo absolutamente sincero, eu já vi coisas assim um controlado de vezes. E ter tido tal privilégio me possibilitou atingir algum nível de dessensibilização. Mas eu sei – ah, se sei! – que muitos de vocês hão de estar preocupados. Ainda que os últimos anos não tenham sido exatamente de mar calmo – e, portanto, em alguma medida todos os marujos sobreviveram a alguns sacolejos -, o ar pode ter resistido pesado demais.

Não tenho vergonha de assumir que, lá em 2008, eu realmente consegui que o mundo ia acabar; que eu ia perder tudo; que minha carreira seria encerrada mal tendo começado. começou a fumar, não dormia, etc. Uma tragédia só.

O que aquilo me ensinou, entretanto, foi simplesmente inestimável: o mundo não somente não se acabou como aquele momento representava uma rara oportunidade de comprar muita coisa boa muito barata.

Segura firme

Redijo essas linhas com a esperança de que elas o sirvam para lhe transmitir uma mensagem muito singela:

Está tudo bem estar apreensivo(a), principalmente os momentos de grande turbulência lhe são novidade. Mas ouça o que tenho a dizer, por favor. Das duas uma: ou, se caixa viver, aproveite o momento para comprar tudo que existir de mais claro na sua frente – claro mesmo, sem inventar moda… …ou não faça nada.

Resista à tentativa de soltar suas posições agora.

Eventualmente as coisas podem piorar? Sem dúvidas. Mas tudo o que temos de evidência de todas as vezes em que vimos coisas próximas foi que, ao tempo certo, elas voltam a melhorar. E os preços dessa época deixe saudade.

A tarefa mais difícil de todas

Em mais de uma ocasião já afirmei, e reafirmo: nos momentos de maior obrigatório, o maior desafio de todos é se permitir não fazer absolutamente nada. Apenas espere.

E isto assim é porque é simplesmente contraintuitivo. O que nos permitiu prosperar como espécie foi justamente nosso aguçado instinto de fuga frente ao perigo.

Mas tal instinto não se aplica à situação presente. Eis uma das vicissitudes de se investir: fazer o que todos estão fazendo espera é uma boa ideia.

Resista. Do lado de cá, estou resistindo também.



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