Kharg, Ormuz e a assimetria da escalada


No artigo anterior, citei a Ilha de Kharg como um dos possíveis pontos de abertura para novos caminhos de escalada no conflito entre Estados Unidos/Israel e Irã. O ataque americano à ilha, ocorrido justamente na noite de sexta-feira, foi, para mim, um movimento inesperado, eu obviamente o considerei possível, até mesmo o caminho natural no andamento do conflito, mas não esperava que acontecesse naquele momento. Ainda assim, é importante destacar que, embora o ataque tenha sido assertivo, ele não atingiu de maneira sistemática a infraestrutura petrolífera iraniana, cuja centralidade para a economia do país é evidente. Com isso, as instruções seguem girando em torno de Ormuz, mas já avançamos sobre um ponto diretamente ligado à sustentação econômica do regime. Kharg, portanto, deixa de ser apenas uma hipótese de escalada e passa a representar a evidência de que a guerra entrou em uma fase mais delicada, na qual a pressão militar sobe de patamar sem ainda configurar, ao menos por agora, um ponto de inflexão total no andamento da guerra. Pelo contrário, o episódio reforça a assimetria que tem marcado o conflito desde seus primeiros dias mais intensos, é claro que há espaço para piora, e ele não é pequeno, mas os efeitos ainda não se traduzem, em uma ruptura mais ampla da economia global.

Embora o ataque à Ilha de Kharg tenha aumentado a pressão sobre Teerã, ele também reforçou um limite importante da conduta americana até aqui. Trump parece ter optado por um movimento de coerção elevado, mas ainda contido, evitando atingir de maneira objetiva a infraestrutura petrolífera que sustenta boa parte da capacidade exportadora iraniana (mais de 90% do petróleo exportado pelo país, parte dessa ilha). Essa observação é central, porque mostra que o objetivo imediato não parece ser o colapso econômico do Irã, mas sim o aumento da pressão em torno da reabertura de Ormuz e da contenção militar no Golfo. Em outras palavras, os Estados Unidos sobem mais um degrau na guerra, mas ainda preservam uma margem de cautela diante do risco de que um ataque mais profundo às capacidades de produção petrolífera iraniana provoque uma disparada ainda mais severa no preço do petróleo e empurre uma crise para um patamar econômico muito mais difícil de administrar.

Essa cautela americana, não deve ser interpretada como moderação desinteressada ou despretensiosa, mas como expressão de um limite estratégico concreto. Os Estados Unidos forneceram de capacidade militar para ir além, seja por meio de ataques mais contundentes contra a infraestrutura energética iraniana, seja por ações mais ousadas externas à captura ou paralisação prolongada de ativos críticos, mas transformar essa superioridade em uma escalada mais assertiva significaria assumir riscos de um choque ainda mais agudo no petróleo. Ou seja, ataques letais a Kharg podem ampliar a pressão inflacionária sobre os próprios aliados e aprofundar o desgaste político de uma guerra que, para os americanos, está longe de ser existencial. Nesse sentido, a limitação da estratégia americana não resulta de falta de meios, mas da dificuldade de converter poder militar em resultado político sem acelerar uma crise econômica cujo alcance não será regional, mas global.

Logo, temos aqui um ponto paradoxal para esse conflito, onde para os Estados Unidos, esta é uma guerra de alto custo, mas não de sobrevivência, já para o regime iraniano, ao contrário, essa é uma guerra existencial. Essa assimetria altera a lógica da dissuasão, porque o lado militarmente mais forte não dispõe de liberdade plena para usar toda a sua força, enquanto o lado mais vulnerável pode se mostrar disposto a absorver perdas muito maiores antes de recuar. Quanto mais pressões e acuados o Irã se sente, maior tendência a ser o incentivo para responder de forma mais agressiva e desorganizadora, seja pelo aumento das minas em Ormuz, seja por ataques a infraestruturas sensíveis nos países do Golfo, como usinas de dessalinização, portos, terminais energéticos ou outros pontos de alto impacto estratégico. Portanto, a superioridade americana não elimina o risco de escalada, porque a ocorrência iraniana, mesmo partindo de uma posição mais fraca, continua capaz de espalhar custos severos e se há espaço para os Estados Unidos escalarem de um lado, existe o mesmo espaço para o regime de Teerã fazer o mesmo, mas por lógicas diferentes.

É importante ressaltar que o Irã segue praticamente sozinho, com apenas algumas informações de ajuda dos russos para atingir alvos americanos. Até aqui, o regime não declarou capacidade real de articular uma aliança estatal robusta que lhe permitiria ampliar militarmente o conflito em escala regional. Seus movimentos têm sido muito mais específicos para evitar um cerco do que a reunir parceiros para sustentá-lo, talvez muito disso seja em função da liderança do país estar desestabilizada após os ataques que eliminaram figuras importantes da política nacional nos primeiros dias de conflito. Isso, porém, não significa irrelevância. Isolado, o Irã tende a depender ainda mais daquilo que continua ao seu alcance, ampliar a insegurança no Golfo, dificultar a normalização de Ormuz, atacar infraestruturas sensíveis dos vizinhos e custos econômicos muito acima de sua força convencional direta. Logo, seu isolamento não elimina o risco que representa, na verdade reforça a possibilidade de uma ocorrência ainda mais imprevisível, caso conclua que já não há espaço real para contenção ou saída diplomática.

Reforçando o que disse no artigo anterior a este, dificilmente, essa guerra produzirá a queda do regime iraniano apenas por meio da pressão militar e econômica externa. Mesmo que os ataques avancem sobre ativos da estrutura petrolífera do país, os efeitos mais profundos sobre a economia doméstica iraniana ainda exigiriam tempo para se converter em desgaste social, instabilidade interna ou ameaça concreta de colapso político. Sem tropas em terra, sem disposição americana para sustentar uma campanha longa dessa natureza e sem sinais claros de um levante interno capaz de transformar a pressão externa na queda do regime, a perspectiva permanece limitada. O cenário mais plausível, assim, não é o de uma guerra total no Oriente Médio, mas o de um conflito que ainda pode escalar de maneira relevante e divulgar seus custos sobre o petróleo, a navegação e a economia global, sem que isso necessariamente se converta em uma vitória decisiva para qualquer um dos lados.

Vale ainda dizer que observei alguns questionamentos recentes, sobre: ​​Quanto tempo essa guerra vai durar? Vai ser longo? Vai ser curto? Bem, ao meu ver, isso depende, o que é uma guerra longa? Meses, anos? O que é uma guerra curta? Dias? Semanas? Enfim, não dá pra relativizarmos o conflito atual em panorama com conflitos anteriores mais recentes no Oriente Médio, a importância do Irã como uma potência regional é indiscutível, seja para o bem ou para o mal, eles são uma das grandes potências atuais do Oriente Médio ao lado de Israel e Arábia Saudita, logo, um conflito com uma potência regional abre espaço para muitas imprevisibilidades que podem decorrer ao longo dos dias essas situações podem prolongar o conflito. O que podemos fazer é observar os fatos e sinais dados e daí analisar, dentro do contexto atual, apesar do ataque a Kharg e da tentativa do Trump de mobilizar aliados para auxiliar na normalização do tráfego naval em Ormuz, eu vejo os Estados Unidos com pressa, obviamente eles estão interessados a derrubada do regime, mas hoje, isso não parece que vai acontecer, portanto, estão com pressa e querem degradar o quanto puderem o regime iraniano, mas com uma construção narrativa adequada, poderiam se declarar vitoriosos e o mesmo vale pro Irã, só do regime não cair depois de tamanha pressão, também já abre espaço para a construção narrativa de vitória hoje mesmo. Por fim, até o momento das pressões externas para o fim das hostilidades, parece exercer mais força do que as razões para mantê-lo, portanto, na minha análise, ele tende a acabar nos próximos dias, o que não significa que não haja impactos econômicos que ainda poderão ser sentidos por meses e tampouco, que as hostilidades tiveram impacto em seu ápice, afinal, enquanto o regime iraniano seguir de pé, tenha como maior inimigo os americanos e assim novos episódios de confronto direto a ocorrer e quando acontecerem, com uma ainda maior intensidade.





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