Há duas formas de investir.
A primeira delas, sexy, que domina o imaginário popular, é a de ir em busca de grandes atos.
A topologia do mercado é assimétrica e leptocúrtica, com caudas desequilibradas e pesadas.
Logo, se formos capazes (ou sortudos) de pegar alguns grandes acertos, poderemos enriquecer mesmo diante de uma maioria de pequenos erros.
No entanto, há uma confusão perigosa aqui: não sei se é o investidor que vai em busca de um grande acerto ou se é o grande acerto que vai em busca dos investidores expostos a payoffs interessantes. Acredito mais na segunda alternativa.
Sabe-se que pessoas passaram a vida inteira tentando sempre acertar em cheio, e que agora chegam teimosas e pobres à aposentadoria.
Por isso, dizemos que a primeira forma de investir não vale nada sem a segunda forma, que é a de limpar os grandes erros.
Ao mesmo tempo em que o investidor inteligente garante a exposição de possíveis grandes acertos, ele precisa limpar uma ampla quantidade de erros coletados durante o caminho.
Assim como em todo bom trabalho de faxina, trata-se de um exercício contínuo, e que dá dor nas costas.
Não é fácil reconhecer erros e se livrar deles.
Enquanto a busca por acertos começa sempre a partir de uma jornada esperançosa e construtiva, a limpeza dos erros faz com que nos reencontremos com o que há de pior em nós mesmos – com as nossas falhas, vergonhas e decepções.
Provocados pela experiência de um amigo da Bia, falam sobre isso, sobre como boa parte da nossa rotina nos últimos anos (em especial, desde a pandemia) foi direcionado a mitigar danos.
Dentro dessa ótica ambivalente – de buscar acertos e limpar erros –, a única gestão possível de um portfólio é a gestão ativa.
Simplesmente não há como montar uma carteira com 15 ações (por exemplo) e carregá-la à distância pelos próximos dez anos.
Nem mesmo os compradores de ETF fazem gestão genuinamente passiva, pois os pesos de cada componente do índice vão se ajustando por critérios de mercado que espelham sucesso e fracasso.
E nem mesmo o ícone do comprar e manter Warren Buffett promete carregar indefinidamente. Ele, que apresentou rapidamente o problema de ter ações compradas de companhias aéreas, e que já fez parte da exposição a TSMC (NYSE:).
Só para não esquecer o outro extremo, isso não significa também que devemos mexer na carteira ao menor indícios de mudança, para o bem ou para o mal.
Entre as trocas frenéticas (insegurança) e a perenidade eterna (indiferença), existe um ponto intermediário que otimiza as frequências de entrada e saída, derivado do exercício artístico que caracteriza nossa profissão.
A mesma arte, aliás, que às vezes consegue desafiar a realidade.
Neste complicado início de 2023, nossas carteiras estão indo bem melhor que a queda de -4% do no acumulado do ano.
No fim das contas, as duas formas de investir deságuam em um mesmo alfa.


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