Falsa liquidez: Erro que muitos empresários ainda cometem


Com a Selic a 15% ao ano (maior nível em quase duas décadas), uma lição que deveria ser básica voltou a cobrar seu preço de muitas famílias e empresários: ter patrimônio não significa ter liquidez.

Parece óbvio. Mas não é o que se vê na prática.

Grande parte do patrimônio das famílias de alta renda no Brasil está equipada com imóveis e participações societárias (ativos valiosos, mas cuja conversão em caixa pode levar meses e envolve custos relevantes).

Mesmo dentro das carteiras de investimentos, o problema persiste: virou hábito no mercado brasileiro alocar em debêntures, CRIs e CRAs com vencimentos de 10, 15 ou 20 anos atraídos pela taxa mais alta, sem qualquer planejamento de quando esse dinheiro estará disponível.

O mercado secundário desses papéis no Brasil ainda é estruturalmente limitado. Quem precisou sair antes do vencimento nos últimos meses descobriu isso de forma cara.

Muitas vezes, o que separa uma carteira bem construída de uma que apenas parece sólida é uma diferença clara entre liquidez técnica e liquidez econômica.

Uma carteira de ações pode ser totalmente vendida em D+2. Tecnicamente, é um ativo líquido. Mas se a necessidade de caixa surgir em um momento de queda do mercado, vender significa realizar perdas. O investidor tem liquidez para vender, mas não tem liquidez para vender sem destruir valor.

O mesmo vale para quem carregou NTN-Bs longos durante o ciclo recente de alta da Selic: renda fixa no nome, marcação negativa na prática.

Esse risco é especialmente subestimado por empresários e executivos de alta renda. Quem passa anos com renda elevada tende a assumir que essa renda continuará existindo, e que, se precisar de caixa, simplesmente para de reinvestir por alguns meses.

O problema é que crises e oportunidades reportadas avisam com antecedência.

Uma gestão patrimonial série precisa responder a três perguntas que apareceram na conversa com o cliente:

Quanto seu patrimônio vira caixa em 30 dias, sem destruir valor? Em 90 dias? Em 6 meses? Essa resposta precisa existir (e ser honesta).

No Brasil, onde ciclos de juros extremos se repetem com uma frequência incomum em perspectiva global, o investidor que chega a uma crise sem liquidez não apenas perde oportunidades: frequentemente se torna refém de credores ou de condições de mercado desfavoráveis.

Com Selic a 15%, manter liquidez tem custo de oportunidade aparente. Mas esse design ignora o que realmente está no jogo: a capacidade de tomar decisões quando elas importam. E essa capacidade, quando falta, tem um preço muito mais alto do que qualquer spread que o papel longo pagaria.

O dinheiro é rei não é clichê. É uma lição que o mercado reensina toda vez que o ciclo vira.





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