75bps ou 100bps?
A maior parte das apostas se concentra em 75 bps, mas – de alguma forma misteriosa – eu desconfio que teremos estresse se não forem confirmados os 100 bps.
Pensando um pouco adiante, quanto espaço o Copom tem de terminal Selic sem dar um tiro no próprio pé?
Ou, dito de forma mais acadêmica: afinal, estamos ou não em dominância fiscal?
Agora na boca do povo, o conceito de dominância foi originalmente formalizado por Thomas Sargent e Neil Wallace no famoso artigo “Some Unpleasant Monetarist Arithmetic”, de 1981.
No entanto, a sua popularização veio só mais tarde, através do último empírico das crises financeiras nos mercados emergentes na virada do século.
A verdade é que poucos países discutem esse tópico nas mesas de bar, entre debates sobre a moça do avião e as chances do Fogão contra o Pachuca.
Até mesmo os principais especialistas em macro brasileiro são incapazes de chegar a um consenso sobre se estamos ou não em dominância fiscal, embora praticamente concordem que a política monetária perdeu eficácia, na margem.
A partir de uma dívida bruta de 75% do PIB para o caso brasileiro, há quem diga que já adentramos uma zona de alerta (estamos chegando a 80%).
Outros apontam que a dominância só levaria a partir dos 90%, mas que o mercado adiantaria essas especificações, possivelmente engatilhando um limiar anterior.
Ou seja, é mais ou menos como aquela história da definição vernacular da pornografia: “Eu sei quando vejo”.
A priori, ninguém sabe exatamente precisar de uma fronteira, mas conseguiríamos enxergar nitidamente que a ultrapassamos a posteriori.
Ou talvez nem isso.
Tem gente se estapeando nas universidades até hoje para “provar” (?) que entramos em estado de dominância fiscal às vésperas de Lula I ou ao final do Governo Dilma.
Bem, em termos práticos, o que importa é que teremos que conviver com esse fantasma por um bom tempo; então, é melhor se acostumar com ele.
Justamente em algum momento entre as vésperas de Lula I e a final do Governo Dilma, um colega meu de faculdade conseguiu juntar uma grana com o financiado bull market e comprou um apartamento com belo desconto no Butantã, a despeito do alerta da corretora de que se tratava de um imóvel mal assombrado.
Pelo que me lembro, as ocorrências sobrenaturais compreendiam luzes que piscavam e o interfone que tocava no meio da madrugada, sem ninguém do outro lado da linha.
A princípio, os ruídos incomodavam esse meu amigo, até que, por sugestão da namorada, ele passou a desrosquear as lâmpadas e tirar o interfone do gancho antes de dormir.


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