Uma mudança estrutural está em curso no setor financeiro da América Latina. Até recentemente, as transformações mais visíveis aconteciam na camada de aplicativos e interfaces — novas plataformas, bancos digitais e experiências mais ágeis para o usuário. Agora, porém, uma mudança ocorre em um nível muito mais profundo: o da infraestrutura financeira, que define como o valor circula e quem exerce controle sobre esses fluxos.
No Brasil e em toda a região, o Pix começa a convergir com sistemas de liquidação baseados em blockchain, criando novas arquiteturas para pagamentos domésticos e transfronteiriços. As transferências que antes dependiam de cadeias complexas de bancos correspondentes passam, gradualmente, a ser liquidadas em infraestruturas abertas e programáveis. O resultado é a redução de custos, a redução do tempo de liquidação e a redução da intermediação tradicional. O que está surgindo, na prática, é uma profunda reconfiguração da camada de liquidação do sistema financeiro.
A digitalização não democratizou o setor bancário. Essa transformação ocorre em uma das regiões com maior concentração bancária do mundo. Nos últimos 25 anos, a expansão do internet banking ampliou o acesso digital e modernizou os serviços financeiros, mas não prejudicou o poder do mercado das grandes instituições. Pelo contrário, a concentração de ativos entre os maiores bancos aumentou de forma consistente. No Brasil, os cinco maiores — , , , Caixa Econômica Federal e — passaram a concentrar cerca de 80% dos ativos bancários do país, consolidando um nível de domínio que se manteve ao longo das últimas décadas, mesmo diante da digitalização do sistema financeiro.
Nas últimas duas décadas, o setor bancário migrou para smartphones e as interfaces melhoraram, mas a custódia, o controle do balanço patrimonial e o poder de precificação atribuído com as mesmas instituições. A conveniência aumentou; uma propriedade, não. O acesso mais amplo foi adicionado a um sistema rigidamente controlado.
A emergente Terceira Era do setor bancário desafia essa base. O blockchain é uma arquitetura de propriedade, bem como uma ferramenta de eficiência. Ele elimina intermediários que buscam privilégios, permitindo que indivíduos e empresas detenham ações nativamente, realizem transações em infraestrutura compartilhada e participem diretamente da criação de valor do sistema.
A distinção é estrutural: os usuários são clientes do sistema ou participantes dele?
Essa distinção é particularmente relevante na América Latina, onde a confiança no sistema permanece frágil e o conceito de propriedade acarreta tanto direitos quanto responsabilidades. A frustração do consumidor com o sistema bancário tradicional é explícita, exacerbada por barreiras persistentes ao acesso financeiro adequado, hiperinflação e um sentimento generalizado de baixa confiança no relacionamento com as instituições nacionais.
A exigência não se limita a taxas mais baixas, mas também a uma verdadeira autonomia para o usuário. No ano passado, os latino-americanos realizaram mais de US$ 324 bilhões em transações com stablecoins, abrangendo remessas, poupanças remuneradas, participação acionária, tokenização e comércio internacional. Essa atividade reflete a demanda operacional e a eficiência de custos, e não a especulação, à medida que o capital migra cada vez mais para infraestruturas mais rápidas, baratas e alinhadas aos interesses dos usuários.
Uma nova geração de fundadores está construindo sobre essa base. Sua tarefa não é simplesmente inovadora, mas navegar pela complexidade regulatória, escalar sistemas seguros e conectar-se a fontes de liquidez mais amplas. Isso exige mais do que financiamento. Requer infraestrutura comprovada, redes de desenvolvedores robustas e acesso a comunidades de usuários engajados.
A Terceira Era do setor bancário na América Latina é sobre protagonismo econômico. Por décadas, o acesso limitado à liquidez, as altas taxas e o controle restringiram as oportunidades econômicas em toda a região. A questão não era apenas o custo, mas também o poder. Quando as instituições detêm as chaves, os indivíduos permanecem dependentes de sistemas que não controlam.
O blockchain foi projetado para mudar essa dinâmica. Sua promessa é um protagonismo aliado à eficiência. Ele incorpora a propriedade aos fundamentos da infraestrutura financeira, em vez de adicioná-la como um recurso. Quando os usuários detêm seus próprios ativos, movimentam dinheiro sem intermediários e indiretamente os benefícios das redes que utilizam, o equilíbrio de poder se desloca das instituições para os indivíduos.
O caminho a seguir
O verdadeiro progresso acontece quando as pessoas mantêm o controle do seu dinheiro e se beneficiam diretamente do seu crescimento, em vez de dependerem de intermediários que facilitam o acesso e extraem uma parte dos rendimentos. Redes descentralizadas e gerenciadas pela comunidade são mais transparentes, mais benéficas e, em última análise, mais confiáveis do que a infraestrutura financeira tradicional. Fundamentalmente, eles também distribuem a autoridade, controlam o domínio de alguns grandes players e criam espaço para uma participação mais ampla.
A Terceira Era do setor bancário da América Latina se resume, em última análise, a quem controla o sistema. Se as redes abertas continuarem a se expandir, o resultado não será apenas pagamentos mais rápidos, mas um maior empoderamento econômico. Este não é um ciclo tecnológico passageiro. É uma mudança na propriedade compartilhada de um novo ecossistema financeiro, onde as oportunidades são construídas para muitos, em vez de equipamentos nas mãos de poucos.


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