Kharg, Ormuz e o impasse final: O que os EUA ainda podem realmente mudar


Esperei alguns dias a mais antes de voltar com um novo artigo, quando escrevi o anterior, acreditei que este de agora poderia ser o último dessa série de análises sobre o conflito do golfe, mas com os reveladores mais recentes, talvez ainda há espaço para mais análises e após mais de dez dias de hiato, retorno para conectar alguns pontos inovadores, nomeadamente no terceiro artigo dessa série e na sua sequência, o quarto artigo. É importante dizer que, nas visões anteriores eu disse que a guerra parecia se encerrar nos dias seguintes à escrita, e de fato o Trump apresentou uma espécie de interrupção da escalada, ao não atacar a infraestrutura energética do Irã, mas a guerra ainda dura, além do que eu havia imaginado inicialmente. Ainda mantenho uma visão de conflito curto, não houve, até o momento, nenhum fato novo de extrema relevância que mostre significativo uma mudança no panorama geral, onde poderia se tornar para os Estados Unidos, uma permanência prolongada no conflito, algo viável, seja estrategicamente, politicamente ou economicamente, logo, ainda mantenho a ideia de que o conflito poderá ser encerrado em breve, mas a cada novo movimento, a complexidade da situação aumenta e mesmo que o conflito EUA x tenha tenha um fim, aparentemente próximo, a instabilidade no golfe, pode aumentar ainda mais. Portanto, vamos a análise:

Após um mês de guerra, a questão central parece girar em torno de entender o que restará no Golfo se Washington decidir deixar a guerra sem ter uma vitória decisiva, que seria uma mudança no regime de Teerã. O conflito entrou em uma fase em que encerramento e solução deixaram de significar a mesma coisa. Os sinais mais recentes vindos de Washington indicam que a Casa Branca busca uma saída em prazo relativamente curto, mas ao mesmo tempo em que preserva a possibilidade de uma cartada final mais ousada para tentar melhorar sua posição negociadora. Marco Rubio afirmou em 26 de março que a campanha deve durar “semanas, não meses” e que os objetivos americanos podem ser feitos sem tropas terrestres, o que sugere uma disposição crescente para encerrar a operação sem transformá-la em uma guerra aberta de duração indefinida.

Esse movimento americano ocorre justamente quando parte dos países do Golfo passou a emitir um sinal diferente daquele observado no início da guerra. Antes que a prioridade desses atores fosse impedir o eclosão do conflito, agora começa a prevalecer o temor de que um encerramento breve, simplesmente devolva à região um Irã ainda capaz de ameaçar rotas energéticas, infraestrutura crítica e estabilidade estratégica. Índices vindos dos países árabes do Golfo indicam que eles passaram a defender junto aos Estados Unidos que qualquer acordo com Teerã não apenas encerre a guerra, mas também reduza de forma a tensão nas capacidades iranianas de mísseis e drones e impeça uma nova instrumentalização do fluxo energético global.

O problema é que esse apoio mais explícito parece ter chegado tarde. Quando Trump buscou apoio mais amplo para carregar a pressão regional, ele não veio com a mesma clareza, e agora os Estados Unidos pareciam mais inclinados a transformar a guerra em uma saída politicamente vendável do que em uma campanha prolongada de reconfiguração do Oriente Médio. Essa defasagem temporal entre a mudança de humor dos aliados e a disposição americana de continuar carregando o conflito é talvez um dos elementos mais importantes desta fase. Em vez de uma convergência entre Washington e seus parceiros, o que começa a surgir é um desalinhamento: os aliados regionais enxergam com mais nitidez a necessidade de degradar o poder coercitivo iraniano, enquanto os Estados Unidos parecem cada vez mais preocupados em custos limitados, encerrar a operação e administrar politicamente o cenário.

É nesse contexto que Kharg passa a aparecer como hipóteses de cartada final. A ilha tem valor econômico indiscutível e representa um dos principais centros da capacidade exportadora iraniana. Por isso, uma operação contra Kharg não faria sentido como um ponto de inflexão para uma verdadeira mudança de regime, mas como instrumento de coerção terminal, tendo em vista a elevação do custo da intransigência iraniana e arrancar concessões em uma negociação final. O problema é que, mesmo que uma operação anfíbia contra a ilha continue sendo militarmente possível, ela permanece estrategicamente ambígua. O próprio Trump vem avaliando a possibilidade de usar tropas terrestres para tomar Kharg, mas vale a pena ponderar que uma ocupação da ilha exporia forças americanas a drones, minas e ataques assimétricos, além de poder prolongar a guerra em vez de encurtá-la.

A pergunta decisiva, portanto, não é se Kharg pode ser tomada, mas para quê. Se o objetivo fosse o regime, a privacidade da operação pareceria bastante limitada. O regime iraniano não dá sinais concretos de colapso e, ao contrário, a própria continuidade da guerra parece reforçar sua narrativa de resistência. Quanto mais o conflito se prolonga sem ruptura interna decisivamente, mais Teerã pode transformar a sobrevivência em legitimidade política. Nesse sentido, uma ação mais ousada contra Kharg não necessariamente alteraria a posição de poder em Teerã, mas poderia servir apenas para intensificar a pressão econômica antes de uma tentativa de acordo. A questão é que o Irã tampouco parecia disposto a oferecer as garantias estratégicas que Washington precisaria para vender a ideia de estabilização de firmeza, especialmente depois dos ataques já sofridos e no meio das negociações ainda opacas sobre os termos de uma eventual adaptação.

É justamente aí que está o impasse. Ormuz continua sendo a principal carta de força do Irã, e os próprios sinais vindos de Washington indicam que os Estados Unidos sabem que não poderão estabilizar plenamente a rota apenas pela força, ou pelo menos não sem custos muito superiores aos que parecem desejar a assumir. Rubio afirmou que os países europeus e asiáticos que dependem do estreito deveriam contribuir mais diretamente para a livre navegação, o que é, em si, um reconhecimento de que abrir e manter Ormuz seguro não é uma operação simples nem politicamente barata. Ao mesmo tempo, o Irã segue diminuindo que qualquer ataque mais profundo ao seu litoral ou às suas ilhas poderá levar a respostas mais amplas, inclusive por meio de minas e novas formas de pressão regional. Logo, Kharg pode até aumentar o preço da intransigência iraniana, mas dificilmente resolverá o problema principal, que continua sendo a ausência de um acordo minimamente confiável sobre a segurança da rota energética mais sensível do mundo.

Ainda assim, os últimos movimentos mostram que o estágio permanece parcialmente aberto. O passado Irã a falar publicamente em preparação para um eventual ataque terrestre americano, enquanto a entrada direta dos Houthis no conflito, confirmada em 28 de março, adiciona mais uma camada de escalada e mostra que novas frentes ainda podem ser ativadas mesmo quando a guerra parece caminhar para uma conclusão mais próxima. Isso significa que uma operação anfíbia contra Kharg continua parecendo mais arriscada do que provável, mas já não pode ser descartada como possibilidade real de uma cartada final. Mesmo assim, o sentido geral da guerra ainda parece apontado menos para uma mudança de regime e mais para uma saída relativamente breve dos Estados Unidos, acompanhada da tentativa de apresentar algum tipo de resultado estratégico. Se esse for o fato do caminho, a leitura das duas vitórias apresentadas no meu terceiro artigo sobre o assunto, continua preservada: Washington poderá vender a manipulação de capacidades iranianas como sucesso, enquanto Teerã tentará transformar sua própria sobrevivência em prova de resistência. O problema é que, ainda que a guerra esteja se aproximando do fim para os Estados Unidos, isso não significa necessariamente o fim da crise para o Oriente Médio, mas apenas a abertura de uma fase nova, mais difusa e ambientalmente mais imprevisível.





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